quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
The Bioethics of Built Health Care Spaces - A Bioética da construção dos Espaços de cuidados de Saúde
o texto em original foi retirado do do site: https://www.thehastingscenter.org/the-bioethics-of-built-health-care-spaces/
Logo abaixo segue a tradução em português pelo google tradutor
by Diana Anderson, Bill Hercules and Stowe Locke Teti
Published On: January 13, 2021
Posted in Covid-19, Hastings Bioethics Forum, Health And Health Care
In recent decades, our understanding of the role the environment plays in shaping us and our interactions has expanded immensely. Researchers have examined the profound effect social and environmental factors can have on ethical behavior and decision-making. Yet, design choices in the built health care environment raise substantive bioethical issues that demand the attention of bioethicists and ethical inquiry. It is time for the built environment to be considered alongside other parameters of care.
While some health care architects have, for decades, been exploring the power of environmental factors to motivate action, inspire emotive responses, and even prevent violence, little of this terrain has been explored in bioethics. And yet the design of health care buildings affects the rates of adverse events such as patient falls, medication errors, and iatrogenic infections.
Around the world, an alarming percentage of Covid-19 deaths occurred in long-term care facilities. Thirty-eight percent of U.S. Covid deaths have occurred in nursing homes and assisted living facilities, raising many questions about their design and safety. Probing deeper reveals significant inequities related to health care environments. In Ontario, Canada, for example, the death rate was highest in older long-term care facilities built with an outdated design standard that permitted four-person rooms and large communal dining areas. The newer design standards limited occupancy to two people and decentralized dining and other resident socialization spaces to reduce the number of people in each area. While one-third of the province’s facilities followed the old design standard, they accounted for 57% of the Covid-19 deaths in long-term care homes as of June, nearly doubling the risk of death due to Covid.
When the World Health Organization declared SARS-CoV-2 a global pandemic, multiple individuals, professional alliances, and governmental agencies engaged to rapidly develop a decision and design framework to separate and treat various types of Covid-19 patients. In the early days of this response, none of these frameworks were coordinated and few cross-referenced each other’s work, and certainly no bioethical standards were considered. The American Institute of Architects created a task force (including two of the authors) that later issued design guidance on these subjects, which the U.S. State Department translated and recommended to their embassies globally as best practice. However, this well-intentioned rapid response fell short of bioethical inquiry. Questions of patient choice, equitable distribution of supplies, and patient privacy were not considered by the architects.
The intervention in need of study here is the building design itself. Health care architecture is an important quality factor in health care delivery as well as health outcomes. For example, a 2016 McGill University study quantified design and infection control—for every meter walked to a sink, provider handwashing likelihood decreased by 10%. Providing the same level of care to all patients is presumed in hospitals, but the built environment may preclude that in subtle ways. One study of 664 patients found severely ill patients may experience higher mortality rates when placed in intensive care unit rooms that are out of direct lines of sight of nursing staff and physicians.
We find many well-trodden issues in bioethics emerging in this context. Consider the ethical territory that includes “nudging,” behavior modification, and related practices. The built environment is being increasingly used to modify behavior without ethical inquiry. For example, dementia care facilities are being designed to make the residents think they are somewhere else. Often this includes the illusion that patients are free to leave. Creating this illusion may involve deception, such as disguising exits to appear like bookcases or placing a dark mat in front of a door to discourage patients from approaching it out of fear that the mat is actually a hole in the floor. We argue these efforts are no different in kind than those undertaken in medical research or pharmaceutical development and represent an overlooked aspect of bioethical inquiry and belong in the bioethics portfolio.
Decisions to influence behavior through design should be considered like other efforts to influence behavior. The intended goal is the same, and that is what is ethically salient. It is time for the built environment to become a part of the same calculus as other physical and psychological factors affecting care.
Funding and scholarly research should investigate the health effects of specific architectural interventions.
The ethical issues of architectural experimentation require bioethical analysis to assess the harms benefits and obligations of disclosure to those affected by the space.
Bioethicists need to engage with health care architects to develop a mechanism for considering the effects of different designs on patient outcomes, including equal access and treatment, prevention of comorbidities, and use of space to influence people.
The opportunities to create lasting improvements in equitable, efficient care delivery, and preparedness for the next public health emergency should motivate architects, bioethicists, and health care leaders to take up this challenge.
Diana Anderson, MD, M.Arch, is a health care architect and a geriatrician. She completed a bioethics fellowship at the Harvard Medical School Center for Bioethics and is currently a research fellow in geriatric neurology at the VA Boston Healthcare System. Twitter: @dochitect. William J. Hercules, FAIA, FACHA, FACHE, is the CEO of WJH Health, an international health facility strategy firm. He is a past-president of the American College of Healthcare Architects, a member of the American Institute of Architects’ national strategic council, and faculty for the American College of Healthcare Executives. Twitter: @BillHercules. Stowe Locke Teti, HEC-C, is a clinical ethicist at the Invoa Fairfax Medical Campus in Virginia, and executive editor of Pediatric Ethicscope. Twitter: @StoweTeti.
Nas últimas décadas, nossa compreensão do papel que o meio ambiente desempenha em nos moldar e em nossas interações se expandiu imensamente. Os pesquisadores examinaram o efeito profundo que os fatores sociais e ambientais podem ter no comportamento ético e na tomada de decisões. No entanto, as escolhas de design no ambiente de saúde construído levantam questões bioéticas substantivas que exigem a atenção de bioeticistas e investigação ética. É hora de o ambiente construído ser considerado ao lado de outros parâmetros de cuidado.
Embora alguns arquitetos da área da saúde tenham, por décadas, explorado o poder dos fatores ambientais para motivar a ação, inspirar respostas emotivas e até mesmo prevenir a violência, pouco desse terreno foi explorado na bioética. E, ainda assim, o projeto dos prédios de saúde afeta as taxas de eventos adversos, como quedas de pacientes, erros de medicação e infecções iatrogênicas.
Em todo o mundo, uma porcentagem alarmante de mortes de Covid-19 ocorreu em instituições de longa permanência. Trinta e oito por cento das mortes de Covid nos EUA ocorreram em lares de idosos e instalações de vida assistida, levantando muitas questões sobre seu design e segurança. Uma investigação mais profunda revela iniquidades significativas relacionadas aos ambientes de saúde. Em Ontário, Canadá, por exemplo, a taxa de mortalidade era mais alta em instalações de cuidados de longo prazo mais antigas, construídas com um padrão de projeto desatualizado que permitia quartos para quatro pessoas e grandes áreas de refeições comunitárias. Os novos padrões de design limitaram a ocupação a duas pessoas e os restaurantes descentralizados e outros espaços de socialização dos residentes para reduzir o número de pessoas em cada área. Embora um terço das instalações da província seguisse o antigo padrão de projeto, elas eram responsáveis por 57% das mortes de Covid-19 em lares de longa permanência em junho, quase dobrando o risco de morte devido à Covid.
Quando a Organização Mundial da Saúde declarou a SARS-CoV-2 como uma pandemia global, vários indivíduos, alianças profissionais e agências governamentais se engajaram para desenvolver rapidamente uma estrutura de decisão e projeto para separar e tratar vários tipos de pacientes com Covid-19. Nos primeiros dias desta resposta, nenhuma dessas estruturas foi coordenada e poucos referenciaram o trabalho um do outro, e certamente nenhum padrão bioético foi considerado. O American Institute of Architects criou uma força-tarefa (incluindo dois dos autores) que posteriormente emitiu orientações de projeto sobre esses assuntos, que o Departamento de Estado dos EUA traduziu e recomendou a suas embaixadas em todo o mundo como melhor prática. No entanto, essa resposta rápida e bem-intencionada ficou aquém da investigação bioética. Questões de escolha do paciente, distribuição equitativa de suprimentos e privacidade do paciente não foram consideradas pelos arquitetos.
A intervenção que necessita de estudo aqui é o próprio projeto do edifício. A arquitetura da assistência médica é um fator de qualidade importante na prestação de assistência médica, bem como nos resultados da saúde. Por exemplo, um estudo de 2016 da McGill University quantificou o design e o controle de infecção - para cada metro percorrido até uma pia, a probabilidade de o provedor lavar as mãos diminuir em 10%. Fornecer o mesmo nível de atendimento a todos os pacientes é presumido em hospitais, mas o ambiente construído pode impedir isso de maneiras sutis. Um estudo de 664 pacientes encontrou pacientes gravemente enfermos podem apresentar taxas de mortalidade mais altas quando colocados em quartos de unidade de terapia intensiva que estão fora das linhas de visão direta da equipe de enfermagem e médicos.
Encontramos muitas questões bem conhecidas em bioética emergindo neste contexto. Considere o território ético que inclui “cutucadas”, modificação de comportamento e práticas relacionadas. O ambiente construído está sendo cada vez mais usado para modificar o comportamento sem investigação ética. Por exemplo, instalações para tratamento de demência estão sendo projetadas para fazer os residentes pensarem que estão em outro lugar. Freqüentemente, isso inclui a ilusão de que os pacientes são livres para sair. Criar essa ilusão pode envolver engano, como disfarçar saídas para parecerem estantes de livros ou colocar um tapete escuro na frente de uma porta para desencorajar os pacientes de se aproximarem por medo de que o tapete seja na verdade um buraco no chão. Argumentamos que esses esforços não são diferentes dos empreendidos na pesquisa médica ou no desenvolvimento farmacêutico e representam um aspecto esquecido da investigação bioética e pertencem ao portfólio da bioética.
As decisões para influenciar o comportamento por meio do design devem ser consideradas como outros esforços para influenciar o comportamento. O objetivo pretendido é o mesmo, e é isso que é eticamente saliente. É hora de o ambiente construído se tornar parte do mesmo cálculo que outros fatores físicos e psicológicos que afetam o cuidado.
-O financiamento e a pesquisa acadêmica devem investigar os efeitos na saúde de intervenções arquitetônicas específicas.
-As questões éticas da experimentação arquitetônica requerem uma análise bioética para avaliar os danos, benefícios e obrigações de divulgação para aqueles afetados pelo espaço.
-Os bioeticistas precisam se envolver com os arquitetos da área de saúde para desenvolver um mecanismo para considerar os efeitos dos diferentes projetos nos resultados dos pacientes, incluindo igualdade de acesso e tratamento, prevenção de comorbidades e uso de espaço para influenciar pessoas.
As oportunidades de criar melhorias duradouras na prestação de cuidados equitativos e eficientes e na preparação para a próxima emergência de saúde pública devem motivar arquitetos, bioeticistas e líderes de saúde a aceitar esse desafio.
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
Ísis Aparecida Conceição fala aos Cadernos de Gênero e Tecnologia
Entre Vistas e Olhares
Juliane Cintra de Oliveira; E-mail: juliane.cintra@gmail.com ; Universidade de São Paulo, São Paulo,
São Paulo, Brasil.
Cad. Gên. Tecnol., Curitiba, v.12, n. 40, p. 13-24, jul./dez. 2019.
Em menos de duas décadas de produção científica, Ísis Aparecida Conceição, professora de Direito Internacional Público da UNILAB-Malês (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), trilhou uma trajetória singular e proeminente no campo do direito. O argumento central de sua produção é a promoção da justiça racial e a sedimentação do debate sobre interseccionalidade no Brasil, com vistas a emancipação das mulheres negras, bem como reconhecimento dos saberes produzidos por estas cientistas.
Ao lado de figuras icônicas, como a professora Kimberlé Williams Crenshaw, defensora dos direitos civis dos Estados Unidos e uma das principais estudiosas da teoria crítica racial, Ísis inaugura um campo do debate no Direito para as feministas negras na América Latina.
A partir do lugar das mulheres negras, Ísis partilha sua trajetória e a necessidade da elaboração de uma epistemologia feminista própria, à luz dos saberes e experiências de sua comunidade nesta entrevista aos Cadernos de Gênero e Tecnologia.
CGT – Antes mesmo de olhar de modo mais dedicado para sua trajetória eminente no campo do direito, gostaria de começar esta conversa a partir da perspectiva de sua presença nesse Caderno que se debruça sobre a reflexão de Gênero e Tecnologia. Sendo pesquisadora do campo do direito, você se considera uma cientista? A trajetória de uma mulher negra do campo das ciências humanas contempla esta abordagem de ciência e tecnologia?
Ísis – A gente sabe que o cientista nada mais é que uma pessoa que se vale do método científico, já o produtor de tecnologia, por sua vez, seria a pessoa que produz ferramentas para aprimorar a qualidade de vida ou dos resultados e achados, após uma pesquisa científica. Sendo assim, você sistematizar um conhecimento ou produzi-lo de modo a alterar uma realidade, o torna um cientista, um produtor de ciência, um produtor de tecnologia. E isso acontece tanto na área de ciências humanas, quanto na área das chamadas ciências duras.
Interpretarmos que somente a área de ciências STEM1 produz ciência e tecnologia, implicaria quase que na negação de todas as ferramentas que foram construídas por cientistas da área de ciências sociais e humanas para promoção de inclusão de gênero, por exemplo. Não é possível propor o debate sobre gênero e raça ou inclusão subalterna em função dessas identidades e partir de uma premissa que esta reflexão não tem uma natureza científica. Negar cientificidade da área do conhecimento que origina o debate desta revista acaba sendo uma contradição, em vista que existem mulheres negras que são cientistas e também estão nas Humanas, a exemplo da Patrícia Hill Collins, Kimberlé Williams Crenshaw, bell hooks, Yuderkys Espinosa Minõso, Ochy Curiel, Lelia Gonzales, elas estão produzindo tecnologia para a gente conseguir observar, interpretar e transformar a nossa realidade.
CGT – Nos dedicando a sua trajetória pessoal, tem uma frase sua – ao tratar da conclusão do seu curso na UCLA School of Law2 - na qual você diz: “aqui, apenas encontrei fundamentação teórica para o que aprendi com meus pais e meus pais aprenderam com seus pais”, com base nisso, conte para gente como se constrói a escolha pela atuação no campo do direito? Antes mesmo de adentrar a universidade.
Ísis – Eu como filha de imigrantes – tanto pela família da minha mãe, do sul da Bahia, como pela do meu pai, oriundo do Recôncavo, que partem para São Paulo, ainda jovens –, cresço em um espaço no qual tenho acesso a uma educação de tradição oral. Aqui na Bahia, as pessoas distinguem isso, há uma educação da sabedoria... afinal, você pode não ter tido acesso à educação formal, mas isso não significa que deixe de possuir um acúmulo de saber, acúmulo este resultante de sua experiência de vida. E foi isto que aprendi na minha casa, exatamente porque meus pais não têm educação formal, mas me educaram de uma forma muito eficaz, a partir dessa atenção eficiente que tiveram em observar o mundo e observar como educar seus filhos para transitar nesse mundo. Evidente que estamos falando da tradição dos Griôs3 , que é também dos meus avós, que tem a ver com sentar e conversar com os mais novos, contar suas histórias, ser uma fonte de informação e saber relevantes.
A Teoria Crítica Racial resgata isso, tanto que tem a questão de valorizar as narrativas. Porque as narrativas quando reproduzem sistematicamente algumas informações, acabam sendo fontes de análise. Por exemplo, você se lembra daquele vídeo das bonecas? Da boneca branca e da boneca preta?
CGT – Que são apresentadas para algumas crianças?
Ísis – Isso! Esta peça é quase uma estratégia de narrativa, apresentada para Suprema Corte dos Estados Unidos, por meio dela constataram que todas as crianças negras tinham uma autoimagem negativa. E esta percepção depreciada de si, está vindo de onde? Da nossa estrutura. Ou seja, você só consegue dizer como está funcionando a estrutura, as instituições, muitas vezes, a partir das narrativas individuais, das histórias dessas pessoas. É este um dos argumentos da Teoria Crítica Racial, mas que eu aprendi dentro de casa.
Aprendi porque ouvia as histórias que meu pai contava, minha mãe contava, que meus avós contavam, tudo era uma fonte de aprendizado. Não só isso, mas também as conclusões a que eles chegavam, muitas delas não são muito diferentes de alguns achados dos professores da Teoria Crítica Racial que nos auxiliam a pensar como funciona esse sistema de subordinação racial. Por exemplo, nem sempre é o Estado que vai negar direitos em função do seu pertencimento racial, às vezes é o particular e isso não me veio numa teoria de horizontalidade dos direitos fundamentais e do particular negando direitos formados por raça. Isso vem de uma história que o meu avô, meu pai e minha mãe contaram, a partir de suas experiências – prática comum quando falamos de povos africanos.
O Griô é a pessoa mais respeitada, porque é ele quem vai observar, memorizar e contar a história daquela comunidade, suas estratégias e aprendizados. Na minha família sempre foi valorizado ouvir os mais velhos, prestar atenção em suas histórias, pois elas podem nos ser úteis lá na frente. Acho que era isso que eu sentia no meu tempo de UCLA, eles teorizaram, mas a horizontalidade de direitos fundamentais e violação de direitos fundamentais por particulares pode ser o chefe folgado, o patrão numa relação de trabalho doméstico que te assedia. Já me contaram que isso acontecia, que não era só a polícia, tinha a dimensão do privado. E, sobretudo, eles também me informaram para que ficasse atenta, para que não fosse absorvida nessa mesma negação de direitos. Acho que é isso. Vários conceitos, mas essa era a ideia.
CGT – Perfeito! E pensando em todo esse caminho que você apresentou, do quanto isso tem a ver com sua narrativa e sua trajetória. Quando é que você vira e fala: bom, é Direito.
Ísis – Tem o lado do Paulo Coelho [risadas], afinal, quando você está prestando vestibular, o desespero sempre bate. Eu era muito boa, no Ensino Médio, em química e matemática, física não fazia tanto sentido, mas eu me saía bem. Lembrome do professor falar que química era “uma grande regra de três”.... Foi assim que me fascinei com aquele curso de Engenharia de Materiais, que parecia ser coisa de Engenheiro Químico. Pensei também em Engenharia Química e se tudo desse errado, a opção seria Engenharia Civil.
Só que quando chegou a hora de pagar – a inscrição para o vestibular eram, como dizem, os dois olhos da cara que decidem sua vida [risadas]. É sério, seu pai te dá oitenta reais e tu vai decidir sua vida, assim que me sentia.... Parei, conversei com a minha mãe e recordei de quando li o Paulo Coelho ainda no Ensino Fundamental. Ele dizia algo assim: aquela profissão que foi a primeira que você escolheu é a que você escolheu na sua vida sem influências da sociedade, portanto, é o que você realmente quer. Foi assim, no final, acabei escolhendo Direito por causa do Paulo Coelho [risadas]. Logo, comprei outro manual, preenchi Direito Noturno ou Direito Diurno, paguei a inscrição e fiz o vestibular.
Teve também o fato da minha mãe trabalhar no Sindicato dos Metalúrgicos, na colônia de férias. Tinha um advogado do sindicato que era uma ótima referência, de muito carinho. Eu era uma criança mesmo, tinha por volta de sete, oito anos, muito tagarela. E ao me observar, ele sempre brincava comigo, afirmando que deveria ir para área do Direito por ser muito articulada. Dizia ele: ela consegue fazer boas defesas!
O elemento final tem a ver com unir o útil ao agradável. De forma pragmática, a faculdade de Direito despontou no meu horizonte como a possibilidade de ter uma profissão, alcançar estabilidade financeira e trabalhar com a defesa de direitos numa estrutura, na qual já sabia que teria meus direitos violados – não somente pelo Estado, mas também pelos outros, particulares – e que todos os que amava também corriam esse risco. Acabei prestando Direito com esse olhar, com essa base de formação. Esse foi o ponto, mas também foi o Paulo Coelho [risadas].
CGT – Você é pesquisadora em muitas áreas do Direito: Direito Internacional, Direito Constitucional, Direito do Consumidor, Direito da Criança, Justiça Racial e Direitos Humanos. Olhando para sua produção acadêmica, para o seu Doutorado e para os dois Mestrados, além da sua Graduação, identificamos que compreender o sistema de justiça a partir do debate racial é uma escolha que orienta sua atuação, não é mesmo?
Ísis – Este sempre foi meu foco, até porque estabeleço conexões de proximidade, estou falando de pai, irmão, tios, da insegurança característica a que são submetidos os homens negros ao meu redor. Há um sistema de insegurança motivado pela violência policial arbitrária, sem motivos além do racismo.
Escolho trilhar por esses caminhos acompanhada de docentes negros, entre os quais é importante falar do Hédio Silva, notório advogado, doutor pela PUC, foi Secretário de Justiça do Estado de São Paulo, do Fernando Fernandez, primeiro negro a ser formar em Direito na UNESP (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho") e o primeiro brasileiro a ser doutor em direito em Coimbra – meu orientador na graduação, ainda há Eunice Prudente, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, para mencionar os professores daqui do Brasil. Tal opção viabiliza dar passos mais largos na pesquisa, não ter que fazer o debate sobre se racismo existe ou não, porque seria uma perda de tempo. Mas sim já partir para outros aspectos da investigação: por que o racismo está no sistema de justiça criminal? Por que o racismo está no processo de adoção? Por que o racismo está na abordagem do Direito do Consumidor? Por que o impacto dos Direitos Tributários é maior para mulheres negras no Brasil? Estas foram as perguntas que informaram o meu olhar.
Você pode ter lentes por meio das quais você enxerga o mundo, você olha as coisas, a minha é racializada, pois esta é a formação que tive em casa. Não se engane, o racismo existe, seja esperta e tente sempre escapar - este é o resumo e isso formou as minhas pesquisas.
CGT – Podemos dizer que a espinha dorsal das suas produções é o debate relacionado a teoria crítica racial. Conte-nos um pouco do que se trata esse conceito?
Ísis – A teoria crítica racial (TCR) é uma escola de pensamento, ela está inserida nesse contexto de pessoas não brancas que entram nas universidades de elite, majoritariamente brancas, nos cursos de Direito dos Estados Unidos, por conta das ações afirmativas. Esses novos estudantes trazem a necessidade de produzir uma teoria para refletir o funcionamento do sistema de justiça sob luz do debate racial.
É um processo de desconstrução do ideário de que o judiciário não vê cor, ao contrário, a Teoria Crítica Racial desponta para falar, não existe neutralidade. Afirmando que, sim, o judiciário tanto vê cor que temos um precedente, muito estudando na escola de TCR, de um homem branco que atirou em três jovens negros dentro do metrô. A alegação era de que por estar sozinho, sentiu-se ameaçado e intimidado, agiu em legítima defesa. O julgamento, por sua vez, foi no sentido de inocentá-lo pois era razoável você sentir medo quando se está só no metrô e três homens negros vêm em sua direção. Dizer que esse julgamento não tem a categoria raça presente é o absurdo dos absurdos, o auge do privilégio branco. É afirmar que o debate sobre discriminação e estereótipos, bem como sobre a negativa de direitos informadas por esses estereótipos de raça estão presentes, e que isso é normal.
Descobrir tudo isso foi maravilhoso, porque eu trabalhava a questão de raça no Direito, mas encontrei um acúmulo de um monte de gente que estava perguntando e pensando como raça perpassava as categorias jurídicas.
Eu posso dizer que a Teoria Crítica Racial formava minhas pesquisas em criminologia na graduação e políticas criminais, marcadamente, mas depois eu percebi que tinha uma sustentação científica nos Estados Unidos, como uma escola reconhecida. De fato, soube da Teoria Crítica Racial em 2007, quando conheci a professora Kimberlé Crenshaw. Se você for ver que eu entrei na faculdade de Direito em 2000 e já estava pensando a categoria raça, foram sete anos meio de autodidatismo nesse campo.
CGT – E como chega o debate de gênero em suas produções? Como você tem abordado tal conceito no campo do direito?
Ísis – Como a maioria das mulheres negras em espaços de poder, percebemos primeiro a categoria raça. Você é discriminada pelas mulheres brancas e homens brancos, os homens negros eventualmente disputam com você em um outro contexto, mas a priori não identificava essas condutas de discriminação de gênero imediatamente.
Quando entrei na faculdade de Direito, o que eu via era a polícia parando o ônibus para revistar todo mundo. Quem desce? Meu pai, trabalhador voltando do fim do expediente, já eu não desço. É isto, num primeiro momento, é uma questão de raça que me preocupa, não é uma questão de gênero e por isso me dediquei a pesquisa de raça por muito tempo, mas eu estava mais ou menos com o olhar para agenda de gênero, inevitavelmente.
Então, após muitos questionamentos da professora Kimberlé Crenshaw, aliados a uma palestra do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, quando percebi, por meio da reação da plateia, o quanto a recepção sobre as agendas de gênero e raça eram diferenciadas no Brasil, decidi me debruçar sobre o tema.
Foi surpreendente para mim quando o público quase veio abaixo ao ouvir ele dizer que um país não vai ser desenvolvido enquanto ele discriminar mulheres, enquanto ele não aceitar mulheres em condições de igualdade nos espaços onde os homens estão. As palmas e os gritos o interromperam, no entanto, quando ao retomar, em um ato contínuo, ele afirma que um país não vai ser desenvolvido se discriminar as pessoas em função dela ser mais clara ou mais escura, ou usar cor como exclusão dos espaços de decisão, ninguém me bate palma.... Até brinquei, porque na hora eu bati palma, aí o menino ao meu lado olhou assustado. Falei para ele que todos deveríamos reconhecer no Brasil o quanto o debate sobre raça também é relevante. Voltamos para uma antiga indagação da, abolicionista e ativista dos direitos das mulheres, Soujourner Truth: não sou eu, uma mulher?
No Brasil, existe uma aceitação intensa ao debate sobre feminismo e inclusão de mulheres, porque a premissa é que a inclusão não será de mulheres negras. A premissa é de que a inclusão será de mulher. E mulher é a “mulher universal”, por isso esse espaço do feminismo ter um marcado apoio, no entanto, o debate racial não tem apoio, por ser entendido, como destaca a professora Kimberlé Crenshaw, como a inclusão de homens negros, somente, e eles vistos como ameaçadores pela sociedade. Porém, não se percebe que o debate racial também envolve mulheres negras, uma vez vistas a partir desse viés racial, retomam o olhar existente no período do escravismo.
A mulher negra é vista como não humana, porque o negro ele tem a sua humanidade negada. Aí eu me lembro que sai da palestra do Obama e fui almoçar com a professora Eunice Prudente, dialogamos e constatamos que era necessário aprofundar o conteúdo teórico para entender o que está acontecendo. Pois existem inúmeras feministas interseccionais, um monte de gente falando sobre interseccionalidade, mas nos espaços em que as coisas precisam ser mais contundentes e consistentes, a reflexão sobre raça ainda não é aceita e consequentemente a mulher negra não é observada e a invisibilidade permanece.
CGT – O debate sobre interseccionalidade tem ganhado ampla repercussão entre as ativistas do movimento negro, como tem visto a abordagem dessa categoria para compreensão do fenômeno do racismo e do sexismo em nosso país?
Ísis – Kimberlé Crenshaw já tinha comentado que, nos EUA, os debates sobre ações afirmativas e raça, inclusive os de interseccionalidade, acabavam sempre privilegiando mais as mulheres brancas, do que as mulheres negras e homens negros. Pensei comigo: aqui no Brasil está acontecendo a mesma coisa! Comecei, a partir disso, a procurar qual eventualmente seria esta motivação. Por que isso está acontecendo? Quais as ferramentas estão fazendo com que esse fenômeno ocorra? Vamos pelo menos sistematizar os achados destes questionamentos, para depois pensar em uma intervenção, uma tecnologia que atue nessa constatação.
O nosso diagnóstico aponta para uma instrumentalização da categoria feminismo, desconectada do debate de raça. Aquele clássico que acontecia nos EUA, entre as décadas de 60 e 80, no qual as feministas brancas falavam que as mulheres negras não eram feministas porque rachavam o movimento por não terem sororidade - união e aliança entre mulheres, pois em seu ponto de vista debater a questão racial era menos relevante diante da questão da discriminação da mulher. Acabei de ser apresentada a tal discurso no ano passado, na UNILAB, por isso decidi olhar para esta ocorrência, até porque como uma pessoa que pesquisa, gosto de ter fundamentação, não gosto de usar palavras de ordem, desconectadas de fundamentação teórica. Foi assim que acabei caindo nesse mundo de teorias feministas.
CGT – Você tem trabalhado a categoria de solidariedade assimétrica ao analisar o cenário do feminismo nacional. Conte-nos o que isto significa?
Ísis – A interseccionalidade é uma categoria jurídica, elaborada por Kimberlé Crenshaw, portanto, ela é uma ferramenta. Ou seja, nos casos em que gênero e raça precisam ser apreciados pelo Direito, a interseccionalidade desponta como a ferramenta que dará a visibilidade para identificar como opera na vida de mulheres negras as discriminações de raça e de gênero. A base teórica dessa ferramenta é o Feminismo Negro, como já dissemos, sistematizado por muitas autoras, entre as quais destaco Patrícia Hill Collins.
As disputas epistemológicas se dão no âmbito do reconhecimento do saber e da produção de conhecimento das mulheres negras, de modo que gere o mesmo resultado, para as mulheres negras, que o feminismo branco gera para as feministas brancas, que o antirracismo gera para os homens negros. É a exigência de que a produção do saber reconheça que a interseccionalidade é resultado de um processo emancipatório, que nos permite diagnosticar a opressão e intervir no sentido de alterá-la
Trabalhar a interseccionalidade como se fosse a somatória de todas as identidades excluídas é um equívoco, esta categoria não é olímpiadas da exclusão, ao contrário, ela não deve parar no reconhecimento de uma possível sobreposição ou de um lugar específico, mas como a partir daí você revisita a distribuição de poder e melhora a vida de mulheres negras.
Neste contexto que emerge a abordagem de solidariedade assimétrica, – também me foi apresentada por Kimberlé Crenshaw, esta categoria nos provoca a refletir como a interseccionalidade, enquanto ferramenta, não está sendo usada para o empoderamento das mulheres negras, mas para tão somente reconhecer que elas são vítimas e este não é seu objetivo central. Sua premissa e das teorias que constroem seu embasamento teórico é de que ocorra a emancipação deste grupo social, a promoção de justiça social.
Pensando na solidariedade assimétrica, você mulher negra entra como vítima somente no feminismo ou no antirracismo, entra legitimando a condição dos intermediadores da conversa, você não entrará como um interlocutor, um igual, você não vai ocupar esse espaço do discurso, do cientista, do advogado. Esta é uma problematização que precisa ser feita às mulheres brancas; vocês vão usar essa aproximação de mulheres negras só para legitimarem-se e continuar com o domínio da situação política de gênero, com o monopólio de instrumentalização das ferramentas?
No caso da Aline Pimentel, uma condenação por direitos sexuais e reprodutivos, a gente vê que nem sua mãe ou seu esposo perceberam que, durante os seis meses da gravidez, ela estava recebendo um tratamento inadequado. O bebê já tinha morrido em sua barriga e ninguém percebeu. Tanto que após a morte da jovem, sua mãe que era empregada doméstica comenta com sua patroa a morte da filha e a patroa que era de uma ONG percebe: “nossa, isso é um bom caso para gente entrar com um processo”.
Quer dizer, a família da Aline5 não teve acesso à informação que permitisse a eles perceber que tinha uma negação de direitos acontecendo, porque quem tem acesso a este tipo de informação não são as vítimas, são as pessoas que entram para serem os advogados, os defensores e a função das mulheres negras continua sendo entrar como vítima. Não é essa a proposta da interseccionalidade, criar tokens ideais, a ferramenta busca visibilizar, mas a teoria busca disputar saber, legitimidade de saber e distribuição de acesso a informação. O caso da Ingriane6 parece estar andando do mesmo jeito.
CGT – Um importante feito de sua trajetória é a possibilidade de produzir conhecimento com figuras proeminentes como Kimberlé Crenshaw, Eunice Prudente, dentre outros, como esses feitos acabaram acontecendo?
Ísis – Sei que pode parecer arrogante, mas eu fui atrás, e claro também contei com um bom axé. Foi dessa maneira, por meio de pontes e diálogos que fui conhecendo as pessoas. Um desembargador após uma palestra promovida pelo NEDA, Núcleo de Estudo de Direito Alternativo, me indicou o Hédio Silva, que por sua vez, recomendou a professora Eunice Prudente. Quando a Kimberlé veio para São Paulo em 2007, sai do trabalho e fui pra PUC onde ela estava.
E então, cheguei na professora, falei da minha pesquisa, pedi para conversar, agendamos um encontro e iniciamos as trocas que permanecem – aí tem o inglês e a piada que a Kimberlé sempre faz, porque o único momento em que ela agradece o Axl Rose foi por conta do meu aprendizado do idioma por ser sua fã. A Patrícia Hill Collins estava em Brasília, no Latinidades, lá fui eu com meu livro, pedi autografo e para tirar uma dúvida, foi assim que consegui seu e-mail e mantivemos contato.
É procurar mesmo, porque são muito poucos. Ache e os agarre, sugue deles o máximo de conhecimento...
CGT – Desde que terminou seu mestrado, você assume a experiência da docência como uma das suas frentes de atuação. De lá para cá, agora está professora na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), entre outras universidades, como se deu esse caminho?
Ísis – Na Graduação, já pensava em ser professora de Direito. Lembro-me que o manual do vestibulando, acho que da UNESP, em 1999, afirmava que o número de faculdades de Direito no Brasil crescia sobremaneira e a profissão do futuro no Direito era ser professor porque haveria uma demanda gigantesca! E é verdade! Na minha trajetória acadêmica, percebi que todos os meus modelos de cientistas do direito, que estavam tentando responder às insuficiências do saber jurídico para aprimorar, para construir novas ferramentas, todos eles eram professores. Comecei trabalhando em uma universidade privada na Zona Leste de São Paulo, depois um grande grupo privado, acho que o maior do mundo, e de lá vim pra Unilab.
CGT – Em sua opinião, qual o principal desafio da docência?
Ísis – A partir da minha experiência, penso que em primeiro lugar tem esse momento de adaptação de quem era professora numa universidade privada e agora está em uma universidade pública internacional. Creio que estou conseguindo conciliar bem a parte de ensino, pesquisa e extensão. Fora esses elementos institucionais, tem aqueles elementos das interações humanas... pessoas distintas: alunos brasileiros, alunos brancos brasileiros, alunos negros brasileiros, alunos africanos, alunos africanos de guiné, alunos africanos de guiné da etnia tal.... Com olhar sendo provocado todo o tempo, aprendo demais sobre outras culturas, isso muda decisivamente o fazer acadêmico.
CGT – Você tem também uma carreira técnica como servidora do direito e até mesmo em organizações do campo de defesa de direitos, não é mesmo
Ísis – Sim, tudo começa porque fiz cursinho comunitário, cursinho popular prévestibular. Portanto, quando passo na faculdade de Direito, uma primeira aproximação que encaro é o de devolutiva da ação de movimento social.
Chegando na UNESP, segui como professora de química no cursinho, processo que foi muito importante para minha trajetória. Pensando no ativismo estudantil, fui uma das fundadoras do NUPE, Núcleo Negro de Pesquisa e Extensão da UNESP Franca, um grupo autônomo, de amigos negros que ingressavam na universidade pública em um momento muito específico que antecede as políticas de ações afirmativas no Ensino Superior. Era incrível, tínhamos um programa de rádio na cidade, aos sábados de tarde, promovíamos palestras, seminários, entre outros eventos, que pautavam a produção de conhecimento de pesquisadores negros sobre temáticas raciais.
Depois de formada virei professora de cidadania da EducaAfro4 de Arujá, onde meus pais moram. Esta dobradinha academia e movimento social é uma constante em minha vida, a sustentação da minha atuação... continuar produzindo um saber que não é desconectado da ação política, de uma utilidade prática. Atuei por dez anos na Educafro, saí conselheira administrativa da mantenedora. Ao concluir minha graduação, presto concurso como técnica do Tribunal de Justiça em Arujá, foi esta ocupação que deu conta do custo de vida e viabilizou que tanto minha militância, quanto produção científica fossem autônomas, relacionadas aos meus objetivos e anseios, não ao salário. Já minha passagem em organizações do campo de defesa de direitos foi pela Conectas e a Ação Educativa7 . Participei de um programa na Conectas que abordava os mecanismos de atuação e proteção internacional dos direitos humanos para ativistas. Na Ação Educativa, atuei na unidade Ação na Justiça, responsável pela judicialização do direito humano à educação como estratégia de movimentos sociais. Foi quando aprendi a lógica das organizações sociais, suas principais diferenças em relação aos movimentos políticos e sociais que era a Educafro.
CGT – E o Supremo Tribunal Federal?
Ísis – Atuar no gabinete do Barroso8 foi uma experiência rica, aprendi demais sobre atuação em Tribunal Superior e suas especificidades. O cara é um professor, né? Aprendi mais do que no TJ SP.
CGT – Pensando em seu perfil, considerando os acúmulos desses distintos campos de atuação que integraram sua trajetória, o que você identificaria como singular em seu fazer profissional?
Ísis – Penso que a questão da minha etnicidade, das minhas origens familiares, do apoio incondicional ao meu crescimento e contribuições da minha família para que me tornasse quem sou hoje.
Uma vez em conversa com a professora Kimberlé, disse que queria ser como ela, uma professora do Direito, com uma produção acadêmica reconhecida. E ela me retorna dizendo que para que eu seja uma boa produtora de conhecimentos sobre gênero e raça no Direito não posso ambicionar ser como ela. Na verdade, Kimberlé pede para que seja única, e por isso seria melhor que ela. E é isso, se eu fosse igual a Kimberlé, o meu olhar sobre o feminismo negro americano nos Estados Unidos não conseguiria perceber muitas lacunas. Não conseguiria perceber o quão é importante observar o discurso das feministas decoloniais latinas. Muito menos o quanto a gente está recepcionando ferramentas não adaptadas e por isso elas estão sendo desvirtuadas, não é mesmo?
Demorei? Demorei! Mas ter entrado numa universidade pública e construir a minha trajetória neste espaço, ou virar fã do Axl Rose e conseguir me comunicar com uma grande docente, como a Kimberlé, em inglês e, por isso, ser convidada por ela para estudar nos EUA são oportunidades que passaram e eu consegui agarrar..., mas é muito difícil definir o que é singular, talvez só mais para frente eu consiga falar, pois creio ser um conjunto de coisas que torna cada pessoa diferente das outras ao redor.
CGT – Você encerra em 2019 seu Pós-Doutorado e agora integra o programa Martin-Flynn Global Law Faculty até 2021. Partilhe conosco um pouco mais sobre essas duas experiências e as possibilidades que se abrem.
Ísis – Eu tenho prazer na produção científica, de saberes e o pós-doutorado surgiu como um meio de institucionalizar a minha pesquisa/sistematização sobre interseccionalidade, a qual tenho a pretensão de publicar seja como artigo fora do país, seja como livro. Além disso, tem as disciplinas de Gênero e Etnia na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde sou professora colaboradora, que permite uma investigação mais vertical no tema, inclusive pensando nas aulas que ministro em parceria com a professora Eunice Prudente. O programa Martin-Flynn Global Law Faculty é um curso de primavera que ministro nos Estados Unidos resultado desse novo momento de dedicação exclusiva a vida acadêmica, em função também do lugar que ocupo na Unilab.
CGT – Após todos esses feitos, o que está em seu horizonte de atuação acadêmica e política daqui por diante?
Ísis – Descansar [risadas]! Esse primeiro ano na Unilab, foram muitas palestras, o projeto de extensão que é gigantesco, trazer pessoas para a universidade, como meu colega que era diplomata na Nigéria, ajudar a professora Eunice, aula de direito internacional, aula de gênero e relações internacionais... definitivamente, descansar foi um projeto meio fracassado! Chegou uma hora que minha hiperatividade me desconcentrou da meta que tinha quando mudei para Salvador... CGT – Quais são suas expectativas no campo do direito e gênero? Ísis – A minha grande expectativa, até por conta da minha produção de pesquisa, agora, é avançar na produção da teoria do direito, ampliar cada vez mais o número de cientistas que vão pensar e produzir justiça racial. Estruturar uma teoria transnacional do debate de interseccionalidade, ou uma teoria de interseccionalidade que se sedimente no Brasil, que não seja a transposição da perspectiva do EUA como tem acontecido, sem a coerência da abordagem teórica do feminismo negro. E, claro, curtir a vida. Ela, para nós negros, é muito curta.
NOTAS
1 STEM é a sigla em inglês para Science, Technology, Engineering e Mathematics (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, em português) 2 A Faculdade de Direito da UCLA, também conhecida como UCLA Law, é uma das 12 escolas profissionais da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. A UCLA Law vem sendo constantemente classificada como uma das melhores escolas de direito dos Estados Unidos. 3 De origem africana, 'griô' é um guardião da memória da história oral de um povo ou comunidade. 4 Pré-Vestibular comunitário, que atua pela inclusão da população negra e empobrecida no Ensino Superior. Tem sido um ator relevante na construção de políticas públicas de ações afirmativas, como cotas nas universidades. 5 Em 2002, Alyne da Silva Pimentel Teixeira – mulher negra, 28 anos, era casada e mãe de uma filha de cinco anos – no sexto mês de gestação, acabou falecendo em decorrência de hemorragia digestiva resultante de negligência médica. Após sucessivos erros médicos, ausência de leitos e violência obstétrica, Alyne se tornou um ícone da luta de mulheres negras por direitos sexuais e reprodutivos. O Estado brasileiro foi responsabilizado, em 2011, pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (Cedaw), órgão ligado à ONU, por não cumprir seu papel de prestar o atendimento médico adequado desde o início das complicações na gravidez de Alyne. Para o órgão, a assistência à saúde uterina e ao ciclo reprodutivo é um direito básico da mulher e a falta dessa assistência consiste em discriminação, por tratar-se de questão exclusiva da saúde e da integridade física feminina. 6 Ingriane Barbosa Carvalho de Oliveira, também mulher negra, com 31 anos, morreu por infecção generalizada após recorrer a um abortamento inseguro no qual um talo de mamona foi introduzido em seu útero para interromper uma gravidez de aproximadamente quatro meses, em Petrópolis, Rio de Janeiro. Seu caso foi referência em agosto de 2018, durante audiência pública que discutiu, no Supremo Tribunal Federal (STF), a descriminalização do aborto até as doze semanas de gestação por livre decisão da mulher. 7 Organizações de projeção nacional, com sede em São Paulo, que atuam no campo de defesa dos direitos humanos. 8 Luís Roberto Barroso é um jurista, professor e magistrado brasileiro. É ministro do Supremo Tribunal Federal.
https://periodicos.utfpr.edu.br/cgt/article/view/9494/6424
COVID-19 vaccines could become mandatory. Here’s how it might work.
After a COVID-19 vaccine is available, you may need to get inoculated to go to the office, attend a sporting event, or even get a seat at a restaurant.
BY JILLIAN KRAMER
PUBLISHED AUGUST 19, 2020
YOU WALK TOWARD the arena, ready for a big game, tickets in hand. But what you see is a long line wrapping around the corner of the building and a bottleneck at the entrance as people search their pockets and purses for a small piece of paper. To be cleared to enter, you’ll also need that document—proof that you’ve received a COVID-19 vaccination.
This is the future as some experts see it: a world in which you’ll need to show you’ve been inoculated against the novel coronavirus to attend a sports game, get a manicure, go to work, or hop on a train.
“We’re not going to get to the point where the vaccine police break down your door to vaccinate you,” says Arthur Caplan, a bioethicist at New York University’s School of Medicine. But he and several other health policy experts envision vaccine mandates could be instituted and enforced by local governments or employers—similar to the current vaccine requirements for school-age children, military personnel, and hospital workers.
In the United States, most vaccine mandates come from the government. The Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP) makes recommendations for both pediatric and adult vaccines, and state legislatures or city councils determine whether to issue mandates. These mandates are most commonly tied to public school attendance, and all 50 states require students to receive some vaccines, with exemptions for medical, religious, and philosophical reasons.
Adult vaccine mandates—compelling employees and the public to inoculate themselves—aren’t nearly as widespread, but they’re not unheard of. U.S. states and cities can and have forced compulsory vaccinations on citizens. In 1901, for example, Cambridge, Massachusetts, adopted a law that required all citizens aged 21 and older to get vaccinated against smallpox. Failure to comply could lead to a five-dollar fine, or the equivalent of $150 today. Those who challenged the order in court lost. (The last outbreak of smallpox in the U.S. occurred in 1949.)
Shirt, shoes, and inoculation required
Today, the U.S. military requires troops to be immunized against multiples diseases, including tetanus, diphtheria, hepatitis A, and polio. Several states require workers at healthcare facilities to be vaccinated against diseases such as pertussis, chickenpox, measles, mumps, and rubella. Hospital systems often require additional vaccinations as a condition of employment. And legally, all employers, in any industry, can compel their employees to get vaccinated.
The mandates can be directed toward customers, as well. Just as business owners can bar shoeless and shirtless clients from entering their restaurants, salons, arenas, and stores, they can legally keep people out for any number of reasons, “as long as they’re not running afoul of any antidiscrimination laws,” says Dorit Rubinstein Reiss, a professor of health and vaccine law at the University of California, Hastings College of the Law.
When a COVID-19 vaccine becomes available, some experts think states will require targeted industries to enforce vaccine mandates for their employees, especially those we’ve come to know as “essential workers.”
“Grocery store workers get exposed to a lot of people, but also have the chance to infect a lot of people because of the nature of their work and the fact that virtually everybody needs to buy food,” says Carmel Shachar, executive director of the Petrie-Flom Center for Health Law Policy, Biotechnology, and Bioethics at Harvard Law School. Hospitality industry workers—those who work in restaurants, bars, and coffee shops, for example—could also see similar mandates.
“It’s in an employer's interest to make sure that their workplace is protected and that you can't infect your colleagues,” Shachar says. “Having a widely accessible vaccine gets a lot of employers out of having to control their clients’ behavior.” And with a vaccinated workforce, “you don't need to worry if the people you're serving at the restaurant have COVID-19.”
Even the general public could be incentivized to get vaccinated. “Oddly enough, the best way to impose a mandate is to reward people with more freedom if they follow that mandate,” Caplan says. For example, with proof of inoculation, you would be able to attend a sporting event “as a reward for doing the right thing,” he says. “And I can imagine people saying, If you want to go to my restaurant, my bowling alley, or my tattoo parlor, then I want to see a vaccine certificate, too.”
SCIENCE
Turkey has been contact tracing for a century. That offers lessons and perils.
Booster shots could also be required, depending on the efficacy of future vaccines. Flu vaccines are effective about 70 percent of the time, says Lauren Grossman, professor of emergency medicine at the University of Colorado Denver, and new shots are needed each year. Yvonne Maldonado, a health policy professor at Stanford University, warns that any COVID-19 vaccine may not elicit lasting immunity and could require frequent boosters. If that’s the case, mandates would likely also include proof of booster shots.
Certified vaccinated
While the enforcement of such mandates wouldn’t be without its challenges, it would hardly be impossible or without precedent. To board an Emirates flight to Dubai today, for example, all passengers must present a negative COVID-19 test certificate. Once a vaccine is available, airlines could put in place sweeping regulations requiring COVID-19 vaccination certificates.
Reiss says federal laws could require proof of a COVID-19 vaccine to get a passport—which would then display an emblem showing your vaccination status. Driver’s licenses could be updated in a similar fashion, Caplan says. At work, employee badges could carry vaccination stickers, and a paper certificate from your doctor could serve as vaccine proof for public events.
“Perhaps we'll get to a point where we need to sign proof of immunity to book an appointment,” Grossman says.
More than 150 COVID-19 vaccines are currently in development. Prices for various vaccines have begun to emerge, with some front-runners saying shots could cost as little as four dollars or as much as $37 per dose—which is about what a flu shot costs. Employers who mandate COVID-19 vaccines may help cover the costs, provide time off to obtain the vaccine, or offer on-site vaccinations, says Amber Clayton, director of the Society for Human Resource Management HR Knowledge Center. To help people without insurance or who are low-income or unemployed, some officials have suggested that the federal government could provide shots for free, but details of such a program have not been released.
If such mandates are put into place, not everyone will welcome them: a recent Gallup poll shows that as many as 35 percent of Americans wouldn’t get a COVID-19 vaccine even if it were free. And while anti-vaccine sentiment across the country remains low overall, vaccine hesitancy is growing, with some studies indicating childhood vaccine rates are dropping across the country.
Those with anti-vaccine sentiments are what Caplan describes as a loud minority: They often use compelling campaigns to spread fear about vaccines. For instance, some purport that the measles, mumps, and rubella (MMR) vaccine—required for all school-age children—causes autism. This assertion has been proven false, but it has also caused a decline in MMR vaccination.
Similar anti-vaccine campaigns directed at the vaccines under development for COVID-19 have started to spread, even before a vaccine has been approved for the public. Vaccine mandates, experts say, could be the target of aggressive campaigns from groups that say they are concerned with the safety and efficacy of a vaccine developed at record speed.
People who express hesitancy about a potential COVID-19 vaccine often say their top worry is safety, which raises concerns that some Americans could shy away from inoculation. But if a COVID-19 vaccine is proven safe, “I think the majority of people will want it,” Caplan says. “And if the majority of people want it, you won't have to mandate it—they'll be looking for it.”
https://www.nationalgeographic.com/science/2020/08/how-coronavirus-covid-vaccine-mandate-would-actually-work-cvd/
O direito universal à respiração- por Achille Mbembe
Se a Covid-19 é expressão espectacular do impasse planetário no qual a humanidade se encontra, então trata-se, nada mais nada menos, de recompormos uma Terra habitável, e assim ela poderá oferecer a todos uma vida respirável. Seremos capazes de redescobrir a nossa pertença à mesma espécie e o nosso inquebrável vínculo à totalidade do vivo? Talvez esta seja a derradeira questão, antes que a porta se feche para sempre.
Algumas pessoas enunciam já um «pós-Covid-19». Por que não? No entanto, para a maioria de nós, especialmente nas zonas do mundo em que os sistemas de saúde foram devastados por anos de negligência organizada, o pior ainda está para vir. Na ausência de camas hospitalares, máquinas respiratórias, testes em quantidade, máscaras, desinfectantes à base de álcool e de outros dispositivos de quarentena para quem já foi atingido, infelizmente prevemos que muitos não passarão pelo buraco da agulha.
A política do vivo
Há algumas semanas, perante o tumulto e a consternação que se anunciava, tentámos descrever estes nossos tempos. Tempos sem garantia ou promessa, num mundo cada vez mais dominado pelo medo do seu próprio fim, dissemos. Mas, ainda, tempo caracterizado por «uma desigual redistribuição da vulnerabilidade» e por «novos e ruinosos compromissos com formas de violência tão futuristas quanto arcaicas», acrescentámos1. E, pior, tempo de brutalismo2.
Além das suas origens no movimento arquitectónico de meados do século XX, definimos brutalismo como o processo contemporâneo «pelo qual o poder enquanto força geomórfica é actualmente constituído, se exprime, se reconfigura, actua e se reproduz». E fá-lo pela «fractura e fissura», «pelo preenchimento de vasos, «pela perfuração» e pelo «esvaziar de substâncias orgânicas» (p.11), por fim, pelo que chamamos de «esgotamento» (p. 9-11).
A este propósito, assinalámos os modos moleculares, químicos e até radioactivos desses processos: «Não será a toxicidade, isto é, a multiplicação de produtos químicos e resíduos perigosos, uma dimensão estrutural do presente? Tais substâncias e resíduos não atacam apenas a natureza e o ambiente (ar, solo, água, cadeias alimentares), mas igualmente os corpos expostos ao chumbo, ao fósforo, mercúrio, berílio, aos fluidos refrigerantes» (p.10).
De facto, referíamo-nos aos «corpos vivos expostos à exaustão física e a todo o tipo de riscos biológicos, muitas vezes invisíveis». No entanto, falámos de vírus (quase 600 mil, transportados por todo o tipo de mamíferos) apenas metaforicamente, no capítulo dedicado aos «corpos-fronteira». Porém, o que estava em causa3 era, de novo, a política do vivo como totalidade. E o coronavírus é obviamente o seu nome.
Humanidade errante
Nestes tempos púrpuros — assumindo que a característica que distingue os tempos é a sua cor — talvez devamos, por conseguinte, começar por prestar homenagem a todos os que já nos deixaram. Uma vez atravessada a barreira dos alvéolos pulmonares, o vírus infiltrou-se na circulação sanguínea. De seguida atacou os órgãos e outros tecidos, começando pelos mais expostos.
Seguiu-se uma inflamação sistémica. Quem, antes do ataque, já apresentava problemas cardiovasculares, neurológicos ou metabólicos, ou patologias ligadas à poluição, sofreram os mais furiosos ataques. Sem fôlego e privados de máquinas respiratórias, muitos partiram repentinamente, sem qualquer possibilidade de se despedirem. Os restos mortais foram imediatamente cremados ou enterrados. Em solidão. Disseram-nos para nos livrarmos deles o mais rapidamente possível.
Já que vamos por aí, por que não adicionar a estas pessoas todas as outras, que prefazem dezenas de milhões, vítimas de HIV, cólera, malária, ébola, de vírus nipah, febre tifóide, febre amarela, zica, chikungunya, a diversidade de cancros, epizootias e outras pandemias zoonóticas, como a peste suína ou a febre catarral ovina (ou língua azul), e todas as epidemias imagináveis e inimagináveis que devastaram, durante séculos, povos sem nome em terras distantes. Isto sem contar com substâncias explosivas e outras guerras predatórias e de ocupação que mutilam e dizimam dezenas de milhares e atiram para os caminhos do êxodo outras centenas de milhares de pessoas. A humanidade errante.
Além disso, como esquecer o desmatamento intensivo, os mega-incêndios e a destruição de ecossistemas, a ação nefasta das empresas que poluem e destroem a biodiversidade, e hoje em dia — uma vez que o confinamento faz parte de nossa condição — as multidões que habitam as prisões do mundo e outras pessoas cuja vida é despedaçada contra muros e outras técnicas de criar fronteiras, sejam os inúmeros check points que pontuam vários territórios, ou os mares, oceanos, desertos e tudo o mais?
Ontem e anteontem, tratava-se apenas de aceleração, de redes tentaculares de conexão abrangendo o globo inteiro, da inexorável mecânica da velocidade e da desmaterialização. Era no computacional que se supunha residir tanto o futuro dos humanos e da produção material como o destino do vivo. Lógica omnipresente, com a ajuda da circulação a alta velocidade e a memória em massa, bastaria «transferir para um duplo digital todas as capacidades dos vivos» e pronto4. O estágio supremo da nossa breve história na Terra, o humano poderia finalmente ser transformado em dispositivo plástico. O caminho fora traçado para a realização do velho projecto de extensão infinita do mercado.
No meio da intoxicação geral, é neste rumo dionisíaco, descrito aliás em Brutalisme, que o vírus vem estancar-se sem, no entanto, o interromper definitivamente, mesmo quando tudo fica na mesma. Agora, porém, vive-se a asfixia e a putrefacção, amontoamento e cremação de cadáveres, numa palavra, a ressurreição de corpos vestidos, de vez em quando, com a sua mais bela máscara funerária e viral. Para os seres humanos, a Terra estaria prestes a transformar-se numa roda dentada, a Necrópole universal? Até onde terá de chegar a propagação de bactérias de animais selvagens entre os humanos se, na realidade, a cada vinte anos, são cortados quase cem milhões de hectares de floresta tropical (pulmões da Terra)?
Desde o início da revolução industrial no Ocidente que cerca de 85% das áreas húmidas foram drenadas. À medida que continua inabalável a destruição de habitats, as populações de saúde precária são, quase diariamente, expostas a novos agentes patogénicos. Antes da colonização, os animais selvagens, principais reservatórios de patogénicos, estavam confinados a ambientes onde somente viviam populações isoladas. Foi o caso, por exemplo, dos últimos países silvicultores do mundo, os da Bacia do Congo.
As comunidades que viviam nesses territórios e dependiam de recursos naturais têm sido expropriadas. Têm sido expulsas em prol da venda de terras por regimes tirânicos e corruptos, e pela concessão de grandes cedências estatais a consórcios agroalimentares, deixaram de conseguir manter a sua autonomia alimentar e energética que, durante séculos, lhes permitiu viver em equilíbrio com a mata.
Nunca aprendemos a morrer
Nestas condições, uma coisa é preocuparmo-nos com a morte de outro, ao longe. Outra, é de súbito tomar consciência da própria putrescibilidade, de viver na vizinhança da própria morte, de contemplá-la enquanto possibilidade real. À partida, é esse o terror suscitado pelo confinamento a muita gente, a obrigação de, por fim, responder pela sua vida e nome.
Responder aqui e agora pela nossa vida sobre a Terra com outros (incluindo os vírus) e pelo nosso nome em comum: é isto que o momento patogénico impõe à espécie humana. Momento patogénico, mas também momento catabólico por excelência, o da decomposição dos corpos, da triagem e da eliminação de todo o tipo de detritos-de-homens — a «grande separação» e o grande confinamento, em resposta à surpreendente propagação do vírus e em consequência da extensiva digitalização do mundo.
Não importa o quanto nos tentemos livrar dele. No final, tudo nos traz de volta ao corpo. Tentámos enxertá-lo noutros suportes, fazer um corpo-objecto, um corpo-máquina, um corpo digital, um corpo ontofánico.
Ele regressa sob a forma angustiante de uma enorme mandíbula, veículo de contaminação, vector de pólen, de esporos e de bolor.
Saber que não estamos sós nessa provação, ou de que seremos muitos a escapar, trará apenas um vão conforto. E se assim não for é porque nunca aprendemos a viver com o que é vivo, a preocuparmo-nos verdadeiramente com os danos causados pelo homem nos pulmões da Terra e no seu organismo. Numa palavra, nunca aprendemos a morrer. Com o advento do Novo Mundo e, alguns séculos mais tarde, a aparição das «raças industrializadas», nós escolhemos, numa espécie de vicariato ontológico, delegar a nossa morte noutrem e fazer da própria existência um grande repasto sacrificial.
Em breve deixará de ser possível delegar a morte noutrem. O outro não morrerá mais em nosso lugar. Não seremos apenas condenados a assumir, sem mediação, a nossa própria morte. Haverá cada vez menos possibilidades de adeus. Aproxima-se a hora da autofagia e, com ela, o fim da comunidade, porque dificilmente haverá comunidade digna desse nome se dizer adeus, isto é, fazer a memória do vivo, deixar de ser possível.
Pois a comunidade, ou melhor, o em-comum, não assenta apenas na possibilidade de dizer adeus, isto é, de ter um encontro único com os outros e a honrá-lo de novo de cada vez. O em-comum assenta também na possibilidade da partilha sem condição e de, a cada vez, recuperar qualquer coisa de absolutamente intrínseca, ou seja, de incomensurável, incalculável, e por isso sem preço.
O digital, novo buraco na terra causado pela explosão
Manifestamente, o céu não deixa de escurecer. Presa no ciclo vicioso da injustiça e das desigualdades, uma boa parte da humanidade está ameaçada pela grande asfixia, ao mesmo tempo que prolifera o sentimento de que o nosso mundo alivia. Se, nestas condições, ele existir no dia seguinte, não poderá ser à custa de alguns, sempre os mesmos, como na Antiga economia. Deverá ser para todos os habitantes da Terra, sem distinção de espécie, raça, sexo, cidadania, religião ou qualquer outra marca de diferenciação. Por outras palavras, não poderá haver alívio senão à custa de uma gigantesca ruptura, produto de uma imaginação radical.
Não basta tapar o buraco. No meio da cratera é preciso tudo inventar, a começar pelo social. Pois quando trabalhar, aprovisionar, informar-se, manter o contacto, nutrir e conservar as ligações, conversar e trocar, beber juntos, celebrar o culto ou organizar funerais, não pode ter lugar senão por interpostos écrans, é tempo de tomar consciência de que estamos cercados de anéis de fogo por todo o lado. Em grande medida, o digital é o novo buraco que a explosão criou na terra. Trincheira, entranhas e paisagem lunar ao mesmo tempo, é o bunker onde homem e mulher isolados são convidados a refugiar-se. Acredita-se que, através do digital, o corpo, a carne e os ossos, o corpo físico e mortal, se liberte do peso e da inércia. No fim desta transfiguração, poder-se-á finalmente atravessar o espelho, resgatados à corrupção biológica e restituídos ao universo sintético dos fluxos. Ilusão porque, do mesmo modo que dificilmente haverá humanidade sem corpo, também a humanidade não conhecerá a liberdade fora da sociedade ou da dependência da biosfera.
Guerra contra o vivo
É preciso portanto começar de novo, se, para as necessidades da nossa própria sobrevivência, for imperativo devolver a tudo o que é vivo (incluindo a biosfera) o espaço e a energia de que necessitam. Na sua versão nocturna, a modernidade foi, do princípio ao fim, uma interminável guerra travada contra os vivos. Ela está longe de acabar. A sujeição ao digital é uma das modalidades dessa guerra. Conduz directamente ao empobrecimento e à dessecação de áreas inteiras do planeta.
É de temer que, finda esta calamidade, longe de santificar todas as formas do estar vivo, o mundo infelizmente não evite um novo período de tensão e brutalidade. No plano geopolítico, a lógica da força e do poder continuará a prevalecer. Na ausência de infraestruturas comuns, uma feroz divisão do globo acentuar-se-á e as linhas de segmentação intensificar-se-ão. Muitos Estados procurarão reforçar as suas fronteiras na esperança de se proteger da exterioridade. Lutarão igualmente por reprimir a sua violência constitutiva, que descarregarão, como de costume, nos mais vulneráveis entre os seus. A vida atrás de écrans e em enclaves protegidos por segurança privada tornar-se-á a norma.
Em África, em particular, e bem dentro das regiões do Sul do mundo, a extracção consumidora de energia, a expansão agrícola e a predação, razão de ser da venda de terras e da destruição de florestas, continuarão sem entrave. A alimentação e o arrefecimento de chips e super-computadores disso depende. O fornecimento e o encaminhamento de recursos e de energia, necessários à infraestrutura da computação planetária, far-se-ão à custa de uma maior restrição da mobilidade humana. Manter o mundo à distância será a norma, para poder expulsar para o exterior todo o tipo de riscos. Porém, como não ataca a nossa precariedade ecológica, esta visão catabólica do mundo, inspirada em teorias de imunização e de contágio, não permitirá sair do impasse planetário em que nos encontramos.
Direito fundamental à existência
Podemos dizer que a propriedade principal das guerras travadas contra o vivo era cortar o fôlego. Enquanto entrave maior à respiração e à reanimação dos corpos e dos tecidos humanos, a Covid-19 inscreve-se na mesma trajectória. De facto, em que consiste a respiração senão na absorção de oxigénio e na rejeição de dióxido de carbono, ou na troca dinâmica entre sangue e tecidos? Mas ao ritmo com que segue a vida na Terra, e tendo em conta o que ainda sobeja da riqueza do planeta, estaremos assim tão longe do momento em que haverá mais dióxido de carbono para inalar do que oxigénio a inspirar?
Antes deste vírus, a humanidade já estava ameaçada de asfixia. Se tiver de haver guerra, deverá ser, em consequência, não contra um vírus em particular, mas contra tudo o que condena a grande maioria da humanidade à paragem prematura de respiração, tudo o que ataca fundamentalmente as vias respiratórias, tudo o que, na longa duração do capitalismo, confinou segmentos inteiros de populações e raças inteiras a uma respiração difícil, ofegante, a uma vida pesada. Mas para daí sair é preciso ainda compreender a respiração, para lá de aspectos puramente biológicos, como aquilo que nos é comum e que, por definição, escapa a qualquer cálculo. Falamos, assim, de um direito universal de respiração.
Simultaneamente acima do chão e nosso chão comum, o direito universal à respiração não é quantificável. Não é apropriável. É um direito relativo à universalidade, não apenas de cada membro da espécie humana, mas do vivo na sua totalidade. É preciso então compreendê-lo como um direito fundamental à existência. Enquanto tal, não pode ser confiscado e, por isso, escapa a toda a soberania, uma vez que recapitula o princípio soberano em si. Ele é, além do mais, um direito originário de habitação da Terra, um direito próprio da comunidade universal dos habitantes da Terra, humanos e não-humanos5.
Coda
O processo foi mil vezes intentado. Podemos recitar de olhos fechados as principais acusações. Seja a destruição da biosfera, o resgate das mentes pela tecnociência, a desintegração das resistências, os reiterados ataques contra a razão, a crescente cretinice das mentalidades, ou a ascensão dos determinismos (genéticos, neural, biológico, ambiental), as ameaças à humanidade são cada vez mais existenciais.
De todos estes perigos, o maior será que toda e qualquer forma de vida se torne impossível. Entre quem sonha transferir a nossa consciência para máquinas e quem está persuadido de que a próxima mutação da espécie reside na emancipação da nossa pandilha biológica, a diferença é insignificante. A tentação eugenista não desapareceu. Pelo contrário, está na base dos recentes progressos das ciências e da tecnologia.
Entretanto, esta paragem repentina surge, não da história, mas de algo ainda difícil de entender. Por ser forçada, esta interrupção não é um feito da nossa vontade. É, de diversas formas, simultaneamente imprevista e imprevisível. Ora, é de uma interrupção voluntária, consciente e plenamente consentida que precisamos, de outro modo pouco restará. Restará somente uma série ininterrupta de acontecimentos imprevistos.
Se, de facto, a Covid-19 é a expressão espectacular do impasse planetário em que se encontra a humanidade, então não se trata senão, nem mais nem menos, de recompormos uma Terra habitável, porque ela oferecerá a todos a possibilidade de uma vida respirável. Trata-se, pois, de recuperar os recursos do nosso mundo com o fim de forjar novas terras. A humanidade e a biosfera estão ligadas. Uma não tem futuro sem a outra. Seremos capazes de redescobrir a nossa pertença à mesma espécie e o nosso inquebrável vínculo à totalidade do vivo? Talvez esta seja a derradeira questão, antes que a porta se feche para sempre.
Artigo publicado originalmente em francês na revista AOC media - Analyse Opinion Critique. https://aoc.media/opinion/2020/04/05/le-droit-universel-a-la-respiration/
